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A Toca /// Transformando conteúdo amador com qualidade profissional em conteúdo profissional com qualidade amadora

16 agosto 2013

Fiquei muito empolgado com a notícia de que a Netflix estaria apostando em produção de conteúdo nacional com a série A Toca. Mais empolgado ainda por ser um conteúdo que entra pela porta da frente (if you know what i mean). Tenho que confessar que não acompanho o trabalho de Felipe Neto e da Parafernalha e, fora alguns poucos vídeos de seu vlog, o Não Faz Sentido, tampouco sou fã de seu trabalho. Mas tamanho alcance e visibilidade não se ganha de graça. O Felipe foi um dos caras que soube aproveitar bem seus 15 minutos de fama na internet, transformando-os em 30, 60, 120. Mais que isso. Transformou esses 15 minutos em CNPJ. Gera empregos e monetização para uma infinidade de vloggers com os mais variados perfis de público. Profissionalizou seu sonho e vive disso. O sonho de 10 entre 10 pessoas que produzem algum conteúdo de forma independente virou realidade para ele e sua turma. Minha empolgação não era propriamente pelo Felipe, com quem nunca tive nenhum tipo de contato pessoal, mas por ver um brasileiro que conquistou sua voz por méritos próprios, ganhando espaço em um serviço pago, atraindo assinantes com ares de popstar. E isso é do caralho.

atocamiolo

Justamente por todo o bem que esse movimento em torno de um produto brasileiro pode causar no mercado, pensei 40 vezes antes de escrever esse texto. Não acho bacana fazer uma crítica contundente sobre um canal no YouTube, por exemplo, já que a maioria destes são produções totalmente independentes, fornecidas de graça ao público para que este faça seu julgamento. Já quando uma atração ganha a chancela de uma multinacional, e é cobrado um valor do assinante para que seja assistido, é nossa obrigação avaliar esse conteúdo de forma profissional, como ele se propôs a ser no momento que abandonou o conforto do amadorismo do YouTube.

E por mais triste que seja dizer isso, A Toca simplesmente não funciona. Seja pela linguagem, seja pela dinâmica, seja pelas atuações, a série simplesmente não se sustenta.

Claramente inspirada em The Office, a galera da Parafernalha parece ter esquecido que o programa americano funciona baseado em alguns pilares básicos: vergonha alheia, carisma dos personagens e o cotidiano de 90% da população mundial. Ao tentar misturar essa referência a uma empresa real (e que produz este próprio conteúdo) o que se vê é uma crise de identidade tremenda. Um “personagem” Felipe Neto travestido de chefe burocrata, causando “medinho” em seus funcionários. E basta assistir a uma entrevista ou depoimento do Felipe para ver que ele não é esse tipo de chefe no mundo real. A própria dificuldade dos integrantes da equipe em ter que interpretar uma “versão exagerada” de si mesmos causa alguns overactings constrangedores, onde parece que a câmera começou a gravar e alguém disse: sejam engraçados. Ainda por cima parece haver a necessidade  de justificar o fato de a Parafernalha ser uma produtora de conteúdo de humor em vídeo, inserindo esquetes temáticas (algumas que não se encaixam no tema do episódio nem por decreto) durante o programa, fazendo com que o fiapo de identificação com os personagens da produtora se quebre imediatamente. Um erro quase tão óbvio quanto se os episódios de The Office gastassem metade de seu tempo mostrando papel sendo empacotado, armazenado e distribuído pela Dundler & Mifflin. Não é o produto que sai de lá, mas sim as pessoas e suas interações que devem causar interesse. O resultado é um monte de personagens bi-dimensionais, sem características próprias dentro do roteiro. Qualquer um poderia ocupar qualquer papel, pois não há nada que os diferencie, fora o fato de não parecerem seres humanos críveis quando a câmera começa a gravar.

O triste é que o que prejudica a série é justamente a falta de pretensão de ser algo diferente do que foi no YouTube. Os três episódios da primeira temporada que estão disponíveis no Netflix parecem uma edição apressada reunindo vários vídeos que poderiam estar no canal da Parafernalha, e que certamente funcionariam muito melhor de forma isolada, sem necessidade de levar a um ponto a outro de um roteiro longo. Acaba sendo o mesmo conteúdo em uma roupagem que acaba o desfavorecendo. Tudo o que parece dinâmico nas esquetes do YouTube acaba sendo moroso e cansativo no programa de 30 minutos da Netflix. Desconheço os detalhes da assinatura do contrato, mas parece que um projeto que deveria ter sido incubado por meses, acabou sendo definido em uma semana, para que a oportunidade não se perdesse. Todo o know-how que a Parafernalha possui quando comparada com outros canais do YouTube desaparece diante da grandeza das outras produções originais da Netflix e dos demais concorrentes no catálogo. De um conteúdo com cara profissional em meio aos amadores, ele passa a ter cara amadora em meio a produções profissionais.

Apesar disso tudo, acredito piamente que a série será um sucesso e ganhará uma segunda temporada. A Netflix fez uma jogada sem riscos (e muito inteligente) ao apostar em um conteúdo oriundo do YouTube e que já conta com uma legião de admiradores por lá. A grande questão é que existia potencial para ser muito mais do que é, de dar o próximo passo e ser realmente ambicioso fazendo a coisa mais simples que uma série deve se dispor a fazer: contar a história de pessoas. Da maneira como foi concebida, A Toca apenas repete o que vinha fazendo na “internet aberta”, sem explorar as possibilidades que esse novo formato e público poderiam oferecer. Que venha a segunda temporada. E que seja mais do que foi.

Marton Santos

Editor do Papricast. Paga no máximo 50 pratas por uma foto do Homem-Aranha cometendo algum crime.