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Game of Thrones /// Por que George R. R. Martin é tão imprevisível?

03 junho 2013

Ontem foi ao ar na HBO o penúltimo capítulo da terceira temporada de Game of Thrones. Esse também era um dos episódios mais aguardados por quem já leu os livros escritos por George R. R. Martin e traz uma das cenas mais chocantes de toda a série. Obviamente o texto abaixo contém spoilers, portanto se ainda não leu o terceiro livro da série Crônicas de Gelo e Fogo, A tormenta de Espadas, ou assistiu o episódio de ontem a noite, mantenha-se distante.

 

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Desde o primeiro livro/temporada George R. R. Martin mostra alguns conceitos para seu público. O primeiro deles é: não há protagonista. O livro ainda engana mais o leitor nesse aspecto ao contar a história sob o ponto de vista de alguns personagens chave. Os mais desavisados podem entender que aqueles são os personagens principais. Ledo engano. Essa é uma artimanha narrativa usada pelo autor e que pode servir para evitar mostrar algumas coisas, já que o personagem “narrador” não estava presente, e também para nos familiarizar melhor com estes personagens. Nada indica que eles são intocáveis, virtuosos ou mais merecedores de atenção do que outros. Apenas cumprem seu papel, como peças de xadrez na mesa do autor. Quando Eddard Stark é decapitado no final do primeiro livro, a cena é contada sob a perspectiva de sua filha Arya, e chega a levantar algumas suspeitas no leitor, pois a garota tem dificuldade para reconhecer o pai, mal tratado, magro, sujo e com uma barba de semanas. Estariam os Lannisters executando um sósia? A série é dura e cruel ao desfazer essa dúvida. Vemos Sean Bean ser sumariamente executado com sua própria espada. Essa crueza na narrativa e no trato com suas crias é o que diferencia Game of Thrones de 90% da ficção de fantasia disponível no mercado. Acreditar em um lugar onde dragões são usados como arma de guerra e feiticeiros revivem os mortos pode ainda ser difícil, mas a tarefa é menos árdua quando esse mundo fantástico tem muito da injustiça e imprevisibilidade do nosso. Em Westeros os nobres de coração não voltam para casa cantando canções sobre seus feitos. São assassinados por aqueles dispostos a deixar princípios de lado.

Outra passagem que mostra de forma interessante como Martin usa a perspectiva de alguns personagens para descontruir a imagem dos mesmos, também foi revelada na terceira temporada. Jaime Lannister tem a imagem do herói galante e honrado, mas desde o início da série é mostrado como um vilão. O Regicida. O homem que quebrou um juramento sagrado e matou o rei que jurou proteger com a vida. Em um dos diálogos mais sensacionais de toda a série ele conta a Brienne sua versão da história, ignorada por todos até agora. Ok, ele continua sendo o sujeito incestuoso e que tenta matar crianças para manter seus segredos, você pode dizer. Mas a quantidade de camadas que o personagem ganha ao ser esse acúmulo de erros e acertos é o que o torna quase palpável, em meio a um mundo totalmente fantasioso.

Todos morreram. E eu avisei que tinha spoilers.

Todos morreram. E eu avisei que tinha spoilers.

Mas o episódio de ontem, e que tanto está gerando polêmica na internet nessa segunda-feira, sela o destino do último alicerce de correção inquestionável da série. Robb Stark era o sucessor direto de Eddard não só na linhagem de Winterfell, mas também nos princípios de justiça e honra. Não há lugar em Westeros para personagens assim e o autor trata de cortar o bem pela raiz.

O Casamento Vermelho talvez seja o evento mais ultrajante de toda a série de livros. Um divisor de águas que fez muitos leitores desistirem da série, fenômeno que deve se repetir na TV. Os queridinhos do público, Tyrion e Daenerys, continuam por lá, pelo menos por enquanto, mas o massacre visto ontem nos salões d’As Gêmeas deve frustar a platéia que esperava um desfecho com Robb vingando o pai e exibindo a cabeça dos Lannisters em praça pública. Martin não tem simpatia por heróis. Não tem simpatia pela justiça. E, provavelmente, não nutre um desejo por finais felizes. A Guerra dos Tronos é um evento onde tudo pode acontecer, e onde normalmente se paga pelos erros cometidos. E se paga com o preço do ferro.

O Rei do Norte está morto, e Game of Thrones mais viva do que nunca.

Marton Santos

Editor do Papricast. Paga no máximo 50 pratas por uma foto do Homem-Aranha cometendo algum crime.