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O Voo /// Como evitar desastres e acabar com uma carreira

08 fevereiro 2013

ovooposterJá nos primeiros minutos de O Voo, o diretor Robert Zemeckis nos mostra a natureza perturbada de seu protagonista. O problema com a bebida, seu péssimo relacionamento com a ex-esposa, o uso de drogas pesadas e a falta de responsabilidade com aquela vida que julga não ser mais a sua. O problema (ou solução, no caso) é que o Comandante Whip Whitaker, interpretado brilhantemente por Denzel Washington, é muito bom no que faz. Muito, muito bom.

Assim como em O Náufrago, também de Zemeckis, O Voo se desdobra a partir das consequências de um desastre aéreo. Ou um quase desastre, graças a Whitaker. Levando 202 pessoas, entre passageiros e tripulantes, o avião sofre uma pane hidráulica a 30 mil pés de altitude e, em uma manobra espetacular, o Comandante consegue levar o avião ao chão com apenas 6 mortes. Tratado como herói na mídia, Whitaker foge da repercussão de seu caso, mas não tarda até que os exames toxicológicos feitos no hospital revelem quem ele estava pilotando sob efeito de entorpecentes, o que aliado às 6 pessoas mortas pode levá-lo para a cadeia para o resto da vida.

Justamente por ser o estopim da trama, o acidente aéreo não é o cerne da questão. O longa trata sobre a culpa, que leva a um comportamento autodestrutivo e, consequentemente, a decisões equivocadas e perigosas. Auxiliado pelo representante do sindicato Charlie Anderson (Bruce Greenwood), pelo advogado Hugh Land (Don Cheadle) e pelo conturbado laço de amor e amizade criado com Nicole (Kelly Reilly), o personagem principal passa por uma jornada de erros e acertos que de certa forma é uma maneira de criticar o mito do herói midiático que vemos em todas as grandes tragédias recentes. Seja o bombeiro que batia na companheira mas morreu no 11 de setembro, ou o piloto alcoólico, drogado e péssimo pai que salva 196 pessoas da morte certa, esses eventos tendem a transformar pessoas em entidades sem nenhuma falha, para o deleite do telespectador.

Whip Whitaker, passando o chaveco

Whip Whitaker, passando o xaveco

A atuação de Denzel Washington é o carro chefe do filme, focando todas as atenções e grandes cenas. Sua tentativa de autodestruição se mistura a sua personalidade e é interessante perceber que, assim como seu filho, terminamos de assistir ao filme sem realmente saber quem é Whip Whitaker. Ele se mostra presente em poucos minutos do filme, sendo, na maioria, substituído por uma versão odiosa e destruída de si mesmo. Além disso a opção de Zemeckis por deixar o personagem praticamente alheio ao circo midiático, permite que o espectador compactue muito mais com sua dor e até aceite a “injustiça” das acusações que sofre.

Apesar de toda essa contenção, Zemeckis busca alívio cômico com as aparições de Harling Mays (John Goodman) que, apesar de excelente, parece deslocado no quadro tenso e de autopiedade do longa. Engraçado é perceber também como uma trilha sonora composta praticamente só por clássicos pode parecer exagerada e sem real função na trama além de mostrar o óbvio. Uma boa coletânea para deixar em seu iPod, mas definitivamente não funciona como auxílio da narrativa.

De certa forma, o incidente no avião é uma forma de ver a própria jornada de Whip Whitaker durante o filme. Ele é um homem que enfrenta turbulências na vida sem as levar a sério. É preciso uma grande queda virar sua vida de cabeça para baixo para que resolva assumir suas responsabilidades. Herói ou não, ninguém é perfeito.

Marton Santos

Editor do Papricast. Paga no máximo 50 pratas por uma foto do Homem-Aranha cometendo algum crime.