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Os Miseráveis /// Liberdade, igualdade e fraternidade. Só que não.

31 janeiro 2013

osmiseraviescartazNo final do século 18 ocorreu a Revolução Francesa que, além de uma série de reformas políticas, promoveu a criação dos princípios universais representados na bandeira do país e conhecidos no mundo todo: liberdade, igualdade e fraternidade. Os anos seguintes foram muito tumultuados na França, levando a sociedade comum a uma profunda pobreza e desigualdade. É nesse cenário de miséria e depravação social que Os Miseráveis se passa.

Baseado na obra clássica do romancista francês Victor Hugo, mas muito mais no musical que correu o mundo a partir dos anos 80, é possivel dizer que Os Miseráveis do diretor Tom Hooper é uma readaptação. E não pense que este é mais um daqueles musicais onde algumas músicas são intercaladas com cenas onde atores interagem entre si usando falas. O longa de 2h e 38min é uma ópera cinematográfica do início ao fim, onde é possível ver os atores “cantando” suas falas enquanto ouviam, através de fones de ouvido, a harmonia tocada por um pianista no set de gravação. O resultado, embora soe estranho no início, gera uma imersão total em uma maneira diferente de contar uma história.

O longa acompanha Jean Valjean (Hugh Jackman), um presidiário prestes a ganhar sua liberdade depois de cumprir 20 anos de trabalhos forçados por ter roubado um pão para alimentar sua família. Depois de solto, Valjean irá sofrer na pele a discriminação por ser um ex-detento e se vê obrigado a abandonar sua identidade para poder reconstruir a vida. Mas isso não será fácil quando, anos depois, ele volta a encontrar o obstinado Inspetor Javert (Russel Crowe) que o reconhece da época na prisão e ameaça desmascarar toda a farsa. A vida de Valjean acaba ainda se entrelaçando para sempre com a de Fantine (Anne Hathaway), uma de suas funcionárias que é injustamente demitida e passa a viver nas ruas da cidade.

Anne Hathaway em uma de suas cenas marcantes

Anne Hathaway em uma de suas cenas marcantes

Anne Hathaway, por sinal, merece um parágrafo a parte. Em uma participação relativamente pequena, ela consegue criar a cena mais emocionante do longa, encarnando a dor, a desilusão e a desesperança de sua personagem de forma arrebatadora. Ao final daquela cena estava definida a vencedora do Oscar 2013 de Melhor Atriz Coadjuvante, e qualquer coisa diferente disso será mais uma grande injustiça com Fantine e, principalmente, com sua intérprete.

Porém, seria injusto também não citar o grande trabalho, e a coragem, de Hugh Jackman com o papel de Jean Valjean. Apesar de ser um veterano dos musicais em palcos, Jackman não é um grande cantor, e compensa esse quesito com uma interpretação carregada de força, dor e ressentimentos. Crowe por outro lado realiza com competência o papel de antagonista, mas sem o mesmo brilho de seus companheiros. Parece estar ali para pagar o dentista das crianças e não por real paixão ao projeto.

A história, grandiosa e extensa, acaba por se tornar um pouco cansativa. Apesar de interessante como recurso de storytelling, a cantoria do início ao fim do filme misturada ao tom deprimente e sujo da trama acaba por se tornar uma combinação massacrante. Se, olhando com atenção, é possível encontrar vários subtextos ainda presentes vindos da obra de Victor Hugo, também não serão raras as espiadelas no relógio. Excluindo uma boa meia hora de filme, seria uma experiência muito mais agradável para o espectador.

Se também pode ser considerado uma história universal do ponto de vista do ser humano, de suas angústias, medos e ambições, a trama de Os Miseráveis ganha um contorno totalmente diferente quando visto sob a ótica do povo francês. Conseguir mais de um enfoque, diga-se de passagem, é algo que apenas as grandes obras conseguem e isso é tanto fruto quanto responsável por sua grandeza. Os questionamentos do povo francês que levaram à revolução de julho de 1830, mostrada no terceiro ato do longa, são perfeitamente representados pelo personagem principal. Em três momentos do filme, Jean Valjean é obrigado a levantar grandes pesos sobre seus ombros. Primeiro, quando levanta o mastro de um navio, o faz para ganhar a liberdade. Depois, ajudando um desconhecido na rua, o faz por igualdade. E por final, quando ajuda um companheiro ferido a fugir da morte certa, o faz por fraternidade. Em nenhum momento, na França do início do século 19, é possível seguir os preceitos da bandeira sem pagar um alto preço por isso. Jean Valjean que o diga.

Marton Santos

Editor do Papricast. Paga no máximo 50 pratas por uma foto do Homem-Aranha cometendo algum crime.